O portão abriu por controle remoto. García Flores olhou na direção de uma câmera instalada entre o portão e o muro. Avançou devagar com o seu automóvel antigo. Uma raridade dos anos 70. Um Volkswagen Variant que herdara do pai. Mesmo conhecido como “Cabeça de Bagre”, o veículo era motivo de orgulho para o investigador, que o mantinha em ótimo estado e na ativa. Pelo retrovisor podia ver as cores alaranjadas e vermelhas do pôr do sol daquela tarde.
Luciano Fleming tinha ligado no final da manhã e pedira que viesse com urgência encontrá-lo. Uma cliente havia indicado os seus serviços para o colecionador. Receberia bem pelo serviço, mesmo sem saber ainda do que se tratava. Seus pensamentos foram interrompidos pela filha:
— O pessoal aqui é rico, pai. Você vai cobrar bem dessa vez?
— Vai depender do trabalho, Isabel. Mas não deve ser pouca coisa.
— Se precisar de mim, sabe que eu ajudo, não é mesmo?
— Sim. Eu sei — García Flores circundou um jardim com chafariz no centro de uma rótula e estacionou na entrada da mansão. As portas duplas estavam abertas para eles. Um homem idoso e gordo os aguardava vestindo um robe de cetim azulado. Vestia pantufas escuras e fumava cachimbo.
García e Isabel Flores desceram do carro.
— Não precisa trancar as portas — disse Fleming.
— Tem certeza?
— Nenhum ladrão vai entrar aqui de novo. A segurança já está reforçada.
— Se você se refere ao segurança que está dormindo no Fiat preto do outro lado da rua é melhor não ter tanta certeza.
— Malditos incompetentes. Depois eu me acerto com a empresa de segurança. Venha logo. Precisamos conversar o quanto antes. Não sei a que distância pode estar o ladrão a essa altura.
— Em 48 horas pode estar bem longe ou escondido esperando o momento certo para deixar o país — disse García pegando a mão de Isabel.
Pai e filha subiram seis degraus até atingirem o piso da entrada.
— É ela? — perguntou Fleming olhando para a menina.
— Sim. É minha filha. Vai nos ajudar se for necessário.
— É lógico que vai ser necessário homem! Entrem!
Os dois entraram de mãos soltas seguindo o anfitrião. A menina olhava com curiosidade para todos os móveis da casa. O mobiliário tinha cheiro de madeira velha, de mofo e umidade. Pelas paredes tinham quadros impressionistas e também modernistas intercalados criando uma exposição estranha entre os gêneros. Um divã de veludo amarelo chamava atenção no meio do salão disposto sobre uma tapeçaria com motivos geométricos.
— Qual o seu nome menina? — perguntou Fleming virando o rosto de bochechas robustas e avermelhadas para ela, enquanto arrastava suas pantufas pelo piso encerado e soltava uma baforada de fumaça.
Ela não respondeu.
— Pode se apresentar, minha filha — incentivou García.
— É tímida a menina. Espero que não fique muda na hora de dizer o que aconteceu — falou Fleming com dificuldade. Caminhar muito rápido o deixava sem fôlego.
O proprietário da mansão conduziu os visitantes por uma escadaria. Eles caminharam por um corredor e passaram por duas portas fechadas antes de atingirem um cômodo mobiliado com artefatos indígenas. Ao lado de potes de cerâmica, bonecos de palha e madeira, machadinhas e facas de pedra repousando em prateleiras instaladas nas paredes do recinto, havia uma caixa de vidro de formato retangular quebrada e caída no centro da sala.
— Era aqui que ela estava! — Fleming apontou para a caixa de vidro.
— Ela quem? Você ainda não me disse o que os ladrões levaram.
— Você não é detetive? Não dá pra imaginar? Quem sabe a menina possa nos dizer. Não é ela que tem visões de coisas que já aconteceram?
Isabel agora estava agarrada ao casaco de gabardine do pai.
— As coisas não funcionam tão rápido e da maneira que você pensa..
A menina estava com os olhos amendoados arregalados.
— Conte para nós o que aconteceu, assim poderemos ser mais assertivos em nossa investigação — disse García.
— Certo. Como você pode perceber nada mais foi tocado. Deixei a sala como a encontrei na madrugada após a quebradeira. Me acordei com o barulho. Eu tinha bebido um pouco demais durante a noite e demorei pra levantar. Uísque vagabundo! Me deu até dor de cabeça — o anfitrião apontou para a própria têmpora.
— O senhor não entrou imediatamente em contato com a segurança?
— Eu tentei… Mas as comunicações via internet falharam. Wi-fi dos diabos! Aí decidi pegar o meu revólver na gaveta e resolver a situação sozinho mesmo. Contudo, não cheguei em tempo de surpreender o bandido.
— Como o senhor sabe que era um bandido e que não era um bando?
— Tenho quase certeza. Quando eu corri do meu quarto pra cá a primeira coisa que vi na escuridão foi a caixa destruída. Acendi a luz e corri até a janela que estava arrombada. Pude ver no alto do muro, depois do jardim, uma pessoa de cabelos compridos e roupas esfarrapadas, eu acho, pulando com o conteúdo nos braços para o outro lado.
— E a empresa que faz a segurança pro senhor não percebeu a invasão? Observei várias câmeras instaladas ao redor da casa.
— Aí é que você entra… Na verdade eu não confio neles. Eles me mostraram as imagens das câmeras. Mas na hora do crime só filmaram estática, imagens deformadas, a sombra de uma pessoa.
— Uma sombra?
— Em alguns frames do vídeo apareceu uma imagem indefinida, escura, parecia uma pessoa, de baixa estatura, magra, um borrão se movimentando. Mas a inteligência artificial que controla o movimento de qualquer indivíduo no perímetro das câmeras não alertou os guardas de plantão. Foi o que me disseram.
— Talvez o senhor pudesse processar a empresa tendo essas imagens. É a prova de quem invadiram sua casa e não fizeram a segurança adequada.
— O problema é que a polícia… A justiça… Isso deve ficar entre nós, senhor García… Ninguém pode saber da maior parte dos objetos que eu guardo aqui… Eles não são todos documentados. A múmia eu adquiri no mercado ilegal!
— Hum… Foi isso o que roubaram do seu acervo. Ela não deveria estar em um museu?
— É claro que deveria. É uma raridade. A múmia de uma criança inca — o rosto de Fleming ficara mais vermelho, bufava de raiva e preocupação.
García agachou-se para olhar mais de perto os fragmentos de vidro sobre o piso de madeira. Como os investigadores antigos puxou do bolso uma lupa. Identificou barro em intervalos intermitentes. Eram pegadas entre a caixa destruída e a janela. O ladrão devia estar descalço, pois o detetive não conseguiu identificar marcas de calçados.
Ele caminhou em direção a veneziana de madeira. A trava de ferragem do puxador estava torta no montante e a madeira do caixilho inferior havia sido quebrada permitindo a abertura da janela. Não existia indícios de que o invasor utilizara alguma ferramenta de impacto. Com a lupa ele viu uma coisa presa num dos rachados da madeira. Pegou uma pinça em um dos bolsos internos do casaco e catou o que parecia ser uma unha escura e suja. Armazenou-a em um lenço que dobrou e guardou em um dos seus outros bolsos.
— O que você encontrou aí, García?
— Uma unha. Podemos analisar em laboratório.
— Dá pra descobrir o bandido pelo DNA?
— É possível.
García olhou para o jardim. As flores estavam amassadas pela provável passagem do ladrão. O muro era alto. Difícil de ser escalado por uma pessoa sem auxílio de alguém ou de uma corda.
— Somente a múmia foi roubada?
— Somente? — perguntou Fleming indignado. — Era o objeto mais valioso da minha coleção. Não se deram o trabalho de roubar outra coisa.
— Além de você, quem mais sabia que a múmia estava aqui?
— Eu ainda não tinha contado para os meus amigos mais chegados… Pretendia fazer uma reunião na próxima semana para mostrar minha nova aquisição.
— Se você ainda não contou pra ninguém… Talvez você estivesse sendo espionado. Existem outros colecionadores como você?
— Cof, cof, cof — Fleming tossiu depois de uma tragada mais intensa. — Sim. Existe mais de um. Mas nos conhecemos. Costumamos respeitar o que o outro compra.
— Não confiaria tanto assim neles… Mas se nenhum dos seus concorrentes passou a perna em você… Resta o vendedor. De quem você comprou a relíquia?
— De um contrabandista. Um contato antigo que eu tenho. Não sei onde ele mora.
— E ele sabe onde você mora?
— Lógico. Ele que trouxe a mercadoria — Fleming arregalou os olhos e levantou as sobrancelhas como se tivesse pensado pela primeira vez na possibilidade de o contrabandista ser o autor do roubo. — Mas só se ele estivesse usando uma peruca. O homem é calvo. Bem diferente de quem invadiu minha casa.
— Quem disse que ele mesmo teria entrado aqui?
— Você parece ser bom, García. Muito bom! — disse Fleming reflexivo, enquanto se aproximava da janela. — Eu tenho o celular dele. O indivíduo é arisco. Atende só dia de semana. E quando quer!
— Hoje ainda é quarta-feira.
García Flores olhou para Isabel e deu uma piscadela. A menina abriu um meio sorriso tímido.
— E a menina não vai nos ajudar? — perguntou Fleming. — Talvez fosse mais fácil e efetivo.
— Só se eu ficar sem saída. Por enquanto, pretendo conversar com o seu contrabandista. Você pode ligar pra ele?
— E o que eu digo?
— Você liga e passa pra mim.
Fleming pegou o celular no bolso do robe e ligou. Depois de alguns toques atenderam do outro lado da linha.
— Sou eu, Murilo… Não. Não tô querendo comprar nada agora — disse Fleming, ao mesmo tempo em que olhava para García. — Quero que você fale com um amigo meu… Vou passar ele pra você.
García pegou o telefone.
— Oi, Murilo. Eu trabalho pro Sr. Fleming. Tivemos um pequeno problema na residência dele relacionado ao produto que você vendeu.
O investigador olhava pela janela enquanto escutava Murilo.
— Qual? A múmia. Você sabe. Talvez você saiba também o que aconteceu com ela. Ela foi roubada… Ainda não sabemos se você tem algo com isso. É melhor colaborar. Quem eu sou? Basta você saber que sou muito amigo do Sr. Fleming e cuido dos negócios mais especiais dele. Hum… Não sabe de nada mesmo? O Sr. Fleming vai enviar o meu whatsapp pra você. Se a sua memória refrescar por algum motivo entra em contato comigo. Prefiro não ter que encontrá-lo por meus próprios meios. Tá certo! Por enquanto vou acredita em você.
— E então? — perguntou Fleming ansioso.
— Tive a impressão de que ele não tem nenhuma relação com o roubo. Porém, com uma única conversa não dá pra ter certeza.
García entregou o celular para o magnata.
— Envia o número do meu celular pro whatsapp do Murilo, por favor. Talvez ele entre em contato. E envie pra mim o número dele. Eu posso precisar.
— Conte com isso… Só uma dúvida… Você tem cacife pra colocar na parede um contrabandista do tamanho do Murilo?
— Não. Mas ele não sabe disso. É que nem no pôquer, é preciso blefar acreditando que você tem uma mão excelente.
— Faz sentido, mas é arriscado.
— O senhor vai me pagar bem, não é mesmo?
— Não tenha dúvida, desde que você traga de volta minha múmia.
— Preciso de um adiantamento, dos contatos dos celulares dos seus amigos colecionadores e os endereços deles. Vou precisar monitorar esse pessoal.
Depois de ver uma boa quantia em reais entrar via PIX em sua conta, García pegou Isabel pela mão e se despediu deixando a mansão. O investigador prometeu dar notícias diárias sobre o caso. O colecionador, por sua vez, estava decepcionado por não ter visto em ação a menina. Tinham dito para ele que ela resolvia qualquer enigma. Queria saber se ela podia dizer quem tinha roubado a sua múmia.
Continua…